A glorious day

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23 Mar 2009, 17:16

Sun 22 Mar – Just a Fest

Eu vi minha vida passar diante de meus olhos ontem no show do Radiohead. Toda a minha vida desde que saí da casa dos meus pais, quando saí do interior e vim pra São Paulo. Estava tudo lá. As crises existenciais, o estresse da vida na cidade grande, as desilusões amorosas, as decepções, o caos, a paranóia, o desespero e também as alegrias, as melhores amizades, as teorias filosóficas com cerveja, as grandes esperanças, os momentos em que um ombro amigo salva a sua vida. Tudo isso em quase 2h30 de um show impecável, o mais aguardado e, não por acaso, o melhor show da minha vida junto com o Pearl Jam de 2005.

Toda a ansiedade, que não foi pouca, ganhou um ingrediente extra quando começaram a pipocar os setlists das últimas apresentações. Analisei-os friamente, detectei alguns padrões, e como o Rio de Janeiro teve "Creep" eu achei que São Paulo não teria. Já estava conformado com isso. Assisti a um vídeo amador no YouTube, gravado no Rio, involuntariamente engraçado. O cinegafista gritava "CARALHO" do primeiro acorde de "Creep" até o primeiro verso, "When you were here before..." Contei pro pessoal ao meu redor que achou divertido e "CARALHO" virou a palavra da noite, substituído por um eventual "PUTA QUE PARIU", porque às vezes só "CARALHO" não é suficiente. E eu fiquei com inveja dos cariocas, já achando que não ouviria minha querida "Creep" por aqui.

Ah sim, o "Just a Fest" teve outras atrações, mas não serei hipócrita: dei pouca atenção a elas. O Los Hermanos me pareceu meio enferrujado em seu retorno, mais engessado, sem muitas estripulias no palco, uma banda mais tímida. Ainda assim, músicas como "Sentimental" e "Cara Estranho" continuam boas. Em determinado momento o Amarante disse que, por ser um show especial, eles tocariam algumas músicas mais velhas que não tocavam há tempos. Mas não, não houve "Anna Júlia". Não dá pra não pegar bode, ainda mais com uma banda do tamanho do Radiohead tocando seu primeiro grande hit sem pudor na turnê da América Latina. Os Hermanos poderiam seguir o exemplo. Bom, eu pedi "toca Anna Júlia", e gritei "toca Mallu" também. Não fui atendido, óbvio.

O Kraftwerk, que eu descobri ser a banda mais injustiçada de todos os tempos, fez seu show eletrônico-retrô-visual e pouca gente aderiu. Contradição, mais tarde todo mundo dançaria "Idioteque" como se o Radiohead tivesse inventado a roda. Apesar de não ter paciência pra música eletrônica e pro Kraftwerk, tomei as dores dos quatro alemães. Paciência.

Radiohead entrou no palco pontualmente às 22h, com "15 Step", abrindo um repertório que incluiu simplesmente todas as músicas do último disco, o cada vez melhor "In Rainbows", espalhadas em diferentes momentos do show.

No palco, câmeras estrategicamente localizadas captam ângulos inusitados da banda, formando pequenos videoclipes nos telões. O artifício transmite uma energia absurda da banda, que não pára um segundo em um ritmo frenético. E não é só Thom Yorke e seu jeitão epilético de dançar. Jonny Greenwood, o maior responsável pelo Radiohead ser o que é, vai pra lá e pra cá entre sua guitarra, seu teclado e todos aqueles brinquedinhos alternativos que formam o complexo som da banda. Seu irmão Colin, o baixista, fica o tempo todo colado no baterista Phil Selway, e pelas câmeras você vê como ele sente cada acorde na alma. Ed O'Brien, o outro guitarrista, é o mais contido, na escola Adam Clayton do "cool com mínimo esforço".

O som estava ótimo. Não tão bom quanto o imbatível Nine Inch Nails do Claro q é Rock que aconteceu no mesmo local, mas ótimo. A se lamentar a desorganização na saída. Apenas uma estradinha para 30 mil pessoas descerem amontoadas. Milagre que não aconteceu nenhuma tragédia ali. Eu ia reclamar das interferências de uma rádio FM, mas descobri que isso aí é mais uma das brincadeirinhas do Jonny Greenwood, que capta sinais de rádio ao redor e joga no meio do show. O que ontem pareceu defeito agora eu acho que é coisa de gênio.

O repertório passeou por toda a carreira da banda a partir de "OK Computer". O clássico divisor de águas de 1997 teve alguns dos melhores momentos do show: em "Karma Police", as primeiras lágrimas escorreram. Depois elas voltariam na obsessiva "Climbing up the Walls", na gloriosa "Lucky" (e realmente foi um dia glorioso), na devoção quase religiosa de "Exit Music" (30 mil pessoas em silêncio, dava pra ouvir os soluços ao redor) e naquela coisa inexplicável que é "Paranoid Android", com direito ao público convidando Thom Yorke a continuar o mantra "rain down on me" ao final da canção - momento mais emocionante da noite?

Do outro divisor de águas, o "Kid A", vieram "The Nation Anthem", "Optimistic", "Idioteque" e "Everything in Its Right Place", que encerrou o segundo e penúltimo (!) bis com direito a uma introdução com "True Love Waits", uma faixa nunca lançada (só ao vivo no "I Might Be Wrong") que quase me matou do coração. Outro lado-B, "Talk Show Host", foi uma grata surpresa.

Do "Amnesiac", "Pyramid Song" e "You and Whose Army?", com Thom Yorke fazendo um sensacional videoclipe ao vivo com sua webcam. De "Hail to the Thief", a fantástica "There There" e "The Gloaming". Todas executadas com aquela perfeição habitual do Radiohead, como se estivessem em estúdio gravando o disco naquele momento. Caralho. Puta que pariu.

E como nós somos sulamericanos e esperamos muito tempo por isso, ganhamos presentinhos de Thom Yorke. A comoção geral com "Fake Plastic Trees" foi simplesmente uma das coisas mais lindas que eu já vi na vida. Ao final do segundo bis, eu já estava me virando pra ir embora, conformado com a ausência de "Creep" e mesmo assim satisfeito, enquanto os amigos diziam "não pode acabar assim!". Então eis que o Radiohead volta mais uma vez ao palco só pra gente não ficar com nenhuma pontinha de insatisfação. Aceitei como um presente pra mim, pros meus amigos que cantaram "Creep" abraçados comigo, pra todos que estavam lá mas eu não consegui encontrar (cada torpedo enviado valeu a pena), em nome de todos os Creep's Days que já tivemos nos últimos 10 anos. Momento mágico da minha existência, posso afirmar.

Discurso clichê de fã: valeu a pena esperar. Discurso clichê de fã 2: agora posso morrer em paz. Ou, como aprendemos neste final de semana so fucking special, "a vida compensa".

Repertório completo:

"15 step"
"There there"
"The national anthem"
"All I need"
"Pyramid song"
"Karma police"
"Nude"
"Weird fishes/ Arpeggi"
"The gloaming"
"Talk show host"
"Optimistic"
"Faust arp"
"Jigsaw falling into place"
"Idioteque"
"Climbing up the walls"
"Exit music (for a film)"
"Bodysnatchers"

Bis
"Videotape"
"Paranoid android"
"Fake plastic trees"
"Lucky"
"Reckoner"

Bis 2
"House of cards"
"You and whose army"
"Everything in its right place"

Bis 3
"Creep"

Comentarios

  • alerib

    Concordo com tudo o que você disse sobre o Radiohead. Foi o show perfeito, se é que isso existe.

    24 Mar 2009, 1:00
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