O Teatro Místico

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15 Feb 2008, 3:09

Faz algum tempo que não escrevo por aqui por culpa da correria diária, mas nem por isso deixei de ouvir música.
Antes de expor o que andei pensando queria deixar clara a motivação deste post. Tentei iniciar um debate em um fórum de comunidade, e após algumas semanas desisti de discutir. A minha esperança é trocar uma idéia por aqui. Vamos ver se dá certo...
Eu estava ouvindo pela enésima vez O Teatro Mágico e algumas carácterística bem interessantes saltaram aos ouvidos. Ainda mais depois que coloquei o CD para minha mãe ouvir. Ela gostou (como eu esperava), e comentou que achou familiar. Aquilo me chamou a atenção. Minha mãe ouve música, mas não fica fazendo grandes reflexões ou listando os "artistas parecidos".
O Teatro Mágico tem um lugar na música brasileira bem delimitado. Se, por um lado, a proposta de unir teatro, música e circo é muito original, por outro, alguns temas ou a forma de tratá-los tem certa tradição cara à MPB. Nenhum demérito nisso, mas é fato que brincar com a riqueza da língua portuguesa explorando os duplos sentidos, as palavras homófonas (senso e censo, p.ex.) e as aliterações, é algo típido da MPB. Aliás, é tipico do português do Brasil e de ninguém mais. Assim faz Chico Buarque, Caetano Veloso, Sá e Guarabira, Lenine e Zeca Baleiro, apenas para citar alguns.
Coerente com a fusão circo e música, a proximidade com manifestações populares e com o cancioneiro tradicional também é nítido e acho que dispensa apresentações. Basta ouvir Camarada d'água e a cantiga de roda ao final.
Contudo, me chamou ainda mais a atenção a presença do mar e em especial um certa dose de religiosidade. Falar de amor todo mundo fala, é talvez o principal motivo da música, desde as cantigas trovadorescas. Porém falar de fé, deus (qualquer que seja ele) ou algum tipo de religiosidade é pouco usual. Afinal, se quiser falar de deus vá a alguma igreja.
No momento só me lembro de uma música de Gilberto Gil que toca no tema. Deve ter mais, mesmo assim dá idéia da relativa raridade. Enquanto isso em um único CD temos O anjo mais velho que pode ser entendido tanto como uma música declaradamente religiosa:
Enquanto houver você do outro lado/Aqui do outro eu consigo me orientar/A cena repete a cena se inverte/enchendo a minha alma d'aquilo que outrora eu deixei de acreditar
Quanto, de forma mais sofisticada e ainda mais bela, um declaração de saudade de alguém que morreu. E ainda assim teríamos a religiosidade em cena. Só enquanto eu respirar vou me lembrar de você.
Depois temos A fé solúvel, brincando com o consumível e prozaico café ao lado de uma fé igualmente solúvel. E encerrando o CD a bela faixa Amém. Mas há outras referências, como a mulher narrando suas orações no início de Zazulejo.
Afora a beleza e a sutileza ao falar de um tema tão delicado sem ser piegas ou proselitista, trata-se de um reforço no caráter popular das letras. Poucas coisas são tão populares no Brasil como falar da religiosidade de forma corriqueira, cotidiana. Algo como colocar o Santo Antônio no refrigelador...
Envíos aceptados
Indie Music Brasil

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