Produtores: Jacknife Lee
"I'm not afraid of anything... Even time", diz
Gary Lightbody, vocalista do Snow Patrol, em
The Golden Floor. A banda ficou mundialmente conhecida a partir dos hits
Chasing Cars - que apareceu em um dos episódios da série norte-americana Grey's Anatomy - e a popular
Open Your Eyes, ambas do álbum
Eyes Open, lançado em 2006 e considerado até hoje o disco com melhor repercussão dos britânicos. Em virtude deles terem surgido em meio à tendências e um momento voltado a grupos que iniciavam sua elaboração do taxado rock melódico, as comparações terminantemente foram inevitáveis. Depois do estouro máximo em 2006, a associação com o
Coldplay tornou-se algo rotineiro - até mesmo em razão da sonoridade romântica porém intensa, às vezes desolada e o quase sempre lírico frágil. Não houve diagnosticável mudança de perfil sonoro em relação ao que vinham apresentando antes e o que eles dispõem hoje, embora tenham arriscado e experimentado mais em A Hundred Million Suns, quinto trabalho de estúdio do Snow Patrol. A ascendente aclamação pública nunca foi algo com que eles sempre tiveram que lidar. Fato é que durante os primeiros anos de carreira, eram categorizados como uma banda indie, mais rústica, bruta e fortuita, com pouca projeção na indústria e, decisivamente, oculta. Isso é, menos abrangente e instantâneo do que são, por exemplo, no presente. É interessante analisar, historicamente, como a semelhança deles com o Coldplay é compatível até mesmo em termos de mutações de imagem na mídia: ambos eram puramente indies/alternativos, bastante reservados e introvertidos. Com o passar do tempo, os dois, talvez em proporções similares, alçaram excelente notoriedade e partiram rumo uma postura mais complacente e aberta, com menos objeções e mais liberalidade. É complicado afirmar que se culminaram pop após os últimos projetos, mas algo é certo: não houve detrimento algum oriundo da nova perspectiva que aderiram nos anos recentes. Muito pelo contrário: só veio a somar. No entanto, algumas revistas especializadas do gênero indie/rock, como NME (inglesa) e a purista Pitchfork (norte-americana), foram gradativamente diminuindo o espaço deles em suas edições e, óbvio, desvalorizando a integridade das obras que produziram à medida que se revelavam pop. Pois claro, esse é o papel mais do que ideal conforme a bandeira que hasteiam.
Take Back The City, com sua ríspida guitarra, foi o primeiro single e aborda sobre a devoção do vocalista à cidade de Belfast, no Reino Unido. Relembrando o piano de Coldplay e a percussão de
U2,
Crack The Shutters foi o segundo e mostra um narrador apaixonado, alastrando elogios e com a ambição de enfim conquistar sua amada.
If There's a Rocket Tie Me To It veio logo em seguida como material de divulgação, para depois dar espaço ao último single,
The Planets Bend Between Us. Alimentando a ilusória e sonhadora composição lírica que o grupo comumente exibe, a primeira faz o narrador trazer à sua memória os momentos afáveis que antes tivera com alguém e, paralelamente, desejando obter alguma extasia ao lado dessa pessoa. Já na segunda, ele deliberadamente quer declarar seu profundo amor a uma determinada pessoa. E para isso, pretende deixar todos ao redor ciente, desde a Europa até América. Ele chega a pontos extremos como esse, justamente para ilustrar o quanto a ama e o quanto quer fazer daquela relação, algo grandioso e inesquecível. O acústico de
Lifeboats, apesar de apreciável, representa um dos fracos instantes da gravação, juntamente com a árida
Disaster Button e a volúvel
Engines, que provavelmente instigarão apenas seu delimitado nicho. O ritmo latino toma conta do disco em The Golden Floor, um respeitável e virtuoso experimento, que promete envolver boa parte dos ouvintes com a batida seca e desértica que se propaga ao longo da sua execução. O arrependimento envolto à nostalgia ingressa em
Please Just Take These Photos From My Hands, em que o narrador lembra diversos episódios divertidos e confraternizantes que envolveram seus amigos, porém em que ele estava ausente. "Where the hell on Earth was I?", ele diz, desconhecendo as razões pelas quais perdera parte da sua vida, longe de seus colegas e das pessoas que ama. É possível visualizar que ele tenha enfrentado uma solitária e depressiva fase, que seguramente o distanciou das oportunidades boas de entretenimento que recebera durante sua vivência. A sonolenta
Set Down Your Glass traz um eu-lírico tristonho, descrevendo seu nervosismo e como se perde quando seus olhos se encontram com os olhos de sua companheira. Ele termina dizendo que toda sua paixão e seu desejo por ela, ele não quer deixar para outra hora, mas sim agora. Como se pode ver, o amor, junto à timidez e introversão, tem espaço garantido em boa parte das canções aqui idealizadas. Muitas vezes o narrador, acanhado, porém inteiramente romântico e emotivo, tenta de alguma forma alcançar sua pretendente e destilar toda sua vasta e muitas vezes incompreensível adoração. Sendo que, infelizmente, muitas vezes ele não se dá muito bem em seu contato diante de quem tanto ama.
A pretensiosa
The Lightning Strike, que agrupa sequencialmente as faixas
What If This Storm Ends?,
The Sunlight Through The Flags e
Daybreak, nos transporta a uma experiência astronômica, que inicia com a tempestade, a dúvida e o receio de não conseguir estar ao lado de quem o narrador tanto intenta. Passada a nebulosidade e a erosão de incertezas, o raiar do sol aparece, ainda timidamente, elucidando aos poucos o antes desesperançoso rapaz. Ao final, o amanhecer, condição a qual acomoda ele e sua garota, espantando todos os seus pesadelos que outrora os atormentava. A Hundred Million Suns termina fascinantemente e com um gostinho de quero mais. Ainda com passagens descartáveis, sendo mais do mesmo do que há no alternativo, prova-se um bom - talvez memorável - e agraciável álbum.
Melhor Trecho:
"When all this actual life played out
Where the hell on Earth was I?
I rack my brains but it won't come"
Please Just Take These Photos From My Hands