Meados de 2003, 2004... Estava mais um dia na casa da minha vó, compondo alguma ocasião familiar usual. Estava na cozinha, comendo alguma coisa, quando repentinamente uma música atrai meus olhos ao televisor. Estava na MTV e o clipe, era de
The Scientist, do
Coldplay. Nessa época não conhecia quase nada sobre os britânicos e não precisa nem dizer que essa foi minha música favorita durante muito tempo, não é mesmo? Lembro que na época também gostava de
R.E.M. - ao menos um pouco mais do que atualmente, ainda considerando que hoje conheço mais do que antes - e tinha uma leve e, talvez inconsciente, admiração pelos anos oitenta. Aos poucos fui conhecendo o mundo da música mais a fundo e percebendo algumas situações e conceitos inusitados. A partir de então comecei a me enturmar: visitar grupos de discussões, observar as reações de cada um, conhecer as perspectivas de cada ouvinte. Tudo isso agregou bastante. Aproximadamente em 2005, 2006, Coldplay acabara de lançar seu quarto e popularmente aclamado álbum de estúdio. Essa foi mais ou menos a época em que eles começaram a ser concebidos, por significativa parte dos seus fãs, como "pop", grudento e meloso demais. Houve-se então, o início do divisor de águas e a minha primeira e definitiva experiência com o movimento cultural que minava-se naqueles dias: a postura "underground." Pode até parecer que esse fato tenha sido esvanecido atualmente e, para o nosso bem, muitos dos jovens hoje em dia conseguem distinguir, com boa autonomia, o que é bom pra ele e o que não é bom. Consegue ter, felizmente, senso crítico próprio. Mas as coisas não eram bem assim alguns anos atrás...
Hoje em dia a postura "underground" é comungada, em maior parte, por indivíduos jovens, que necessitam se impor, adquirir auto-segurança e, antes de mais nada, deter a plenitude máxima do tão objetivado conhecimento, tanto no campo musical quanto no intelectual. Geralmente ela é feita por pessoas solitárias, reclusas em seus particulares e quase impartilháveis espaços. Elas querem ser únicas e diferentes. Porém, há de se haver extremo cuidado nessas afirmações: o movimento "underground" é constituído basicamente da atitude de se vangloriar por conhecer artistas obscuros e, principalmente, caçoar tudo o que beira à rotulação pop. Mas veja bem, estamos falando de 2005 e 2006, e não dos tempos atuais, que mudou levemente em relação ao que nos deparávamos antes. O blogueiro que aqui escreve denomina a revista digital norte-americana Pitchfork como uma das responsáveis pela cultura indie/alternativa no mundo nos tempos modernos. Ela talvez seja o equivalente ao Google aos indies nativos. Não foi ela, mas ajudou, a ascender o
Radiohead na América. Isto posto, voltemos a 2005... Tempo em que Coldplay começou a perder seus Radiohead's fãs em virtude da sonoridade mais palatável, acessível e afetuosa. O Coldplay trilhava ao pop com hinos como
Fix You,
Speed Of Sound e
The Hardest Part. A crítica especializada não gostou nada disso, argumentando que eles perdiam a essência e inspiração dos tempos áureos - e rock - de "
Parachutes" e "
A Rush Of Blood To The Head", sendo este último, o álbum predileto de quem venera guitarras e sons mais robustos. O Coldplay virava sentimental, quase "emo"... Em outras palavras, dispensável aos orgulhosos e conservadores que sedentos são por experimentações sônicas e coisas que, por si só, soem estranhas, porque a cultura
Creep havia se consolidado. A cultura "Creep" de forma alguma é algo maléfico; talvez pelo contrário: as pessoas começaram a se interessar por música e a levá-la de uma forma muito mais séria. Todos aqueles excluídos, que não tinham nenhuma dominância social, que tinham aversão pelo pop medíocre, superficial e nefasto que borbulhava-se na indústria, foram incentivados a refletir e a chegar a conclusão de uma triste confirmação: que eles de fato eram miseravelmente excluídos. Assim como a cultura "Creep" teve seus prós, ela teve seus contras: a arrogância, presunção, cinismo e vaidade tomaram-se conta dessas pessoas de uma forma horrendamente impressionante. Era como se fosse uma resposta radical à cultura amigável e vivaz que eclodia-se constantemente entre os adolescentes. Éramos preto, não mais coloridos, porque o preto é sério, porque o preto é luto, porque o preto é neutro, porque o preto é um protesto. Radiohead em termos culturais chega próximo ao
Nirvana, a meu ver, e é por isso que devemos chamá-los de fenômenos contemporâneos. Eles acertaram em cheio o espírito da época. São fenômenos, não muito pelo talento e competência (ênfase ao pobre lírico), entretanto pela influência imensurável que jorraram - e jorram - no indie. O Radiohead também acertou no zeitgeist em termos de experimentações na música (experimentações inusitadas (
Kid A): fazer isso, com o rock, é mitificação na certa). Esse fator, óbvio, atraiu e atrai muitos dos seus assíduos.
Então estávamos lá... Com o Coldplay, o expoente do Radiohead e uma das bandas mais promissoras, sendo gradualmente desconsiderado, porque virava pop. Virava pop alegre e bobinho, segundo projeções dos que reprovaram o novo perfil da banda. Estávamos nos anos 2000s. Ano das megalópoles. Ano dos crescimentos tecnológicos desenfreados. Ano da superficialidade. Ano da artificialidade. Ano da melancolia. O ambiente é propício ao Radiohead e aos seus inúmeros filhos largados pelo mundo... E também é propício a mais uma menina, natural de Nova Iorque, que faz eletropop e teria tudo pra estar no lugar errado e na época errada:
Lady GaGa. O "hippie" da GaGa está em fase de crescimento atualmente... O "
The Fame" não foi inteiramente bem compreendido e aprovado, mas o seu figurino, sua audácia, sua excentricidade, sua singularidade e sua arrojada personalidade, a fizeram ganhar expressiva alocação até mesmo no alternativo. O "
The Fame Monster", CD bônus e extensão do seu antecedente, captura parcialmente a aura que inclusive o Radiohead suportou durante algum período. Mesmo sendo descaradamente pop, GaGa tem o hippie a seu favor. O mesmo hippie de diversas bandas no alternativo. Ainda que não tenha sido intenção de Thom, aquela imagem que muitos veem dele pela internet (esta acima, por exemplo), ponderado e analítico, se tornou uma representação fiel do movimento culto-jovial que tem ele como um dos principais líderes.
E o alternativo finalmente consegue ser pop em 2009, com Crepúsculo, que traz
Muse,
Death Cab for Cutie, Radiohead e vários outros artistas nebulosos, enigmáticos, góticos, com estigma intelectual e melancólicos que produziu-se ultimamente. E esse sem dúvida alguma não é o fim. Porque o zeitgeist manda (não entender como referência ao famoso e contraditório filme, mas sim ao sentido literal da palavra, que significa, em alemão, o espírito da época). Porque os tempos são outros. Porque o ser humano tem se tornado cada vez menos importante pra si mesmo... Ele precisa de respostas, se valorizar de alguma forma. Ele está triste. E está hostil, desprotegido e vulnerável, porque foi deixado em segundo plano. Em primeiro está - e sempre esteve - o capitalismo.
O meu medo é que a hipocrisia ainda prevaleça.