Há algum tempo, venho-me interesando mais pela poesía iê-iê. pela vitalidade natural da música vulgar e comercial, do que pelo intelectualismo em que haviam caído todos os que se acreditavam continuadores de Caymmi, Noel e outros, numa linha de música brasileira “pura”. Passei quase um ano sem compor. (…) Adoro meu pai, minha mãe e mues irmãos, mas nãa tenho familia. Eu sou Caetano Veloso. Meu coraçao é do tamanho de um trem. (16/12/1967).
Meu caro Sigmund
A felicidade é uma arma quente. Veja como as coisas traducidas são. De longe eu ouço alguém cantando em Queen’s Gate: “Nelson Rodriguez Jumps the gun, Nelson Rodriguez Jumps the gun…” Estou certo de que foi isso que o John Lennon escreveu. Veja como as coisas traducidas ficam. Eu não consigo entender nada do que esses ingleses falam. Eles, ao contrario, entendem tudo o que eu digo. Veja as coisas traducidas: Hide Park – raio que o parta. (18 a 20/9/69).
O SOM DOS SETENTA certamente só será audible quando nós estivernos perto dos oitenta. Pelo menos só então será identificável. Talvez, pelo contrário, seja ouvido de pronto e fique para sempre inidentificable. O som dos setenta talvez não seja um som musical. De qualquer forma, o único medo é que esta venda a ser década do silêncio. À pregunta “pra onde vão os Rolling Stone agora”?, Mick Jagger repondeu: “pra tras”. O que não só prova que ele está muito para frente como também que quem está com ele não está lá muito otimista. (…) Com a ascensão da música pop, o som dos sesenta, veio toda uma geração cujo universo/linguagem já começa a carecer de conflito – (26/2 a 4/3/70).
Em 72, Gil colocou uma gravação da pipoca moderna na primeira faixa do lp que ele fez naquele ano. Nós não perdemos nunca de todo a esperança. Eu venho tentando me abandonar às palabras cantáveis, ocultas aquí ali, develar algumas, desvelar-me para ellas. Venho sonhando com um canto que seja o som como a visão do visionario. Qual é a da música, afinal? Essas palabras por causa da pipoca dos pífaros merecem meu amor. Não são a realização do meu senho, mas a prova de que é um bom sonho, esse.
MANIFESTO DO MOVIMENTO QUALQUER COISA.
I nada de novo sob o sol, mas sob o sol.
II evitar qualquer coisa que não seja qualquer coisa.
III cantar muito.
IV soltar os demônios contra sexo dos anjos.
V a subliteatura, asubliteatura e a superlitertura. e até mesmo a literatura.
VI por que não.
VII jazz carioca, samba paulista, rock baiano. baião mineiro.
VIII jazz carioca feito por mineiros. samba paulista feita por baianos. baião mineiro feito por cariocas. rock baiano feito por paulistas.
IX e até mesmo a música, por que não.
X mas sob o sol.
XI a década e a eternidade, o século e o momento, o minuto e a historia.
XII exemplos: a obra de jorge mautner. a pessoa de donato, o papo de gil. o significante em maria betania. o significado em elis regina. baiano e os novos caetanos etc.
XIII fama e cama. sempre de novo deitar e criar.
XIV salvador dali no fantástico.
XV o show da vida.
XVI bob dilan live.
XVII qualquer coisa é radicalmente contra os radicalismos e, paradoxalmente, considera ridículo tal paradoxo. ridiculamente não vê nenhum paradoxo nisso. decididamente a favor do adverbio de modo.
XVIII a televisão está melhor do que o carnaval. insistir no carnaval.
XIX e de novo sob o sol. e sempre.
A coisa do rock é uma coisa do tempo da gente. É todo um modo de ser. É um poco assim a cara do nosso tempo. A gente está nessa coisa o tempo todo, não importa como. Eu não penso mais o que é rock, o que não é. A gente já está dentro dele. Tudo é rock.
Caetano Veloso, “Alegria, Alegria”, Río de Janeiro.
Caetano VelosoLivro"Um Tom" "How Beautiful Could A Being Be"robertitus globalSigmund FreudDorival CaymmiNoel RosaJohn LennonMick JaggerRolling StoneGilberto Gil